Profª Doutora Marina Dias Neto
Aneurismas da aorta e dos membros

Aneurismas da aorta e dos membros

A informação apresentada nesta secção corresponde a um resumo das recomendações da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular para o tratamento de doentes com Aneurisma da Aorta Abdominal. O texto resulta de uma tradução para português realizada pelos autores deste website, com o objetivo de facilitar o acesso à informação por parte dos doentes e do público em geral. Estas recomendações baseiam-se na melhor evidência científica disponível e foram elaboradas e revistas por especialistas internacionais. Como em todas as orientações clínicas, estas recomendações poderão ser revistas e atualizadas à medida que surja nova evidência científica.

Referência: Wanhainen A et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Abdominal Aorto-Iliac Artery Aneurysms. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2024 Feb;67(2):192-331. doi: 10.1016/j.ejvs.2023.11.002. Epub 2024 Jan 23. PMID: 38307694.


Um aneurisma da aorta abdominal é um alargamento ou dilatação da principal artéria do corpo, quando esta transporta sangue através do abdómen para irrigar as pernas (A).


Adaptado de Wanhainen A et al. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2024


Estes aneurismas são muito raros antes dos 60 anos de idade. São mais comuns em pessoas que fumam (fumadores atuais ou ex-fumadores) do que em pessoas que nunca fumaram. Também são mais comuns em homens do que em mulheres. Uma minoria de doentes pode ter uma causa genética forte para o aneurisma da aorta abdominal.

A maior parte dos aneurismas não causa quaisquer sintomas, e os doentes com um aneurisma geralmente não percebem que o têm até ser detetado por um médico — seja através de um programa de rastreio, de outros exames médicos, ou no caso de o aneurisma rebentar.

Ocasionalmente, um aneurisma da aorta abdominal é detetado por um médico durante o exame físico do abdómen de um doente. No entanto, este método não é sempre fiável.

Uma forma melhor de confirmar a presença do aneurisma da aorta abdominal é através de uma ecografia do abdómen. Esta ecografia não envolve radiação e é rápida e simples.

Na maioria dos casos, um aneurisma da aorta abdominal permanece desconhecido até ser encontrado, quer como parte de um programa de rastreio, quer numa ecografia ou outro exame realizado por outro motivo.


Oferecer rastreio por ecografia a grupos com maior risco de ter um aneurisma reduz o risco de morrer devido a rotura de um aneurisma da aorta abdominal. Isto acontece porque existem formas seguras e eficazes de tratar ou reparar o aneurisma da aorta abdominal antes de rebentar.

Isto aumenta o número de reparações de aneurisma da aorta abdominal realizadas, mas, como salva vidas e custa menos do que tratar um aneurisma da aorta abdominal já rebentado, pode constituir uma estratégia de saúde eficaz, ao identificar aneurismas antes que rebentem.

O rastreio aumenta o número de pessoas que irão necessitar de operações para reparar um aneurisma da aorta abdominal, mas estas operações são muito mais seguras do que deixar o aneurisma evoluir sem intervenção.

O rastreio demonstrou ser custo-eficaz em homens com 65 anos ou mais, mas atualmente há pouca informação sobre se grupos de mulheres com maior risco beneficiariam do rastreio.


Atualmente, recomenda-se que todas as pessoas com alto risco de aneurisma da aorta abdominal sejam convidadas a realizar uma ecografia abdominal única para procurar a presença de um aneurisma da aorta abdominal.

Os grupos de maior risco que devem ser rastreados incluem:

  1. homens ≥ 65 anos
  2. homens e mulheres com um familiar direto diagnosticado com aneurisma (na aorta abdominal ou noutra artéria)

Se lhe for diagnosticado um aneurisma da aorta abdominal, será informado se este é pequeno (se o diâmetro transversal mede entre 30 mm e 54 mm de diâmetro) ou grande (se o diâmetro transversal mede 55 mm ou mais).

O tamanho de um aneurisma é normalmente medido numa ecografia, de frente para trás. Se for medido por outro método de imagem, o tamanho é geralmente um pouco maior do que o reportado pela ecografia. No entanto, é a medição por ecografia que é a mais importante.

Enquanto o seu aneurisma da aorta abdominal permanecer pequeno, é muito pouco provável que lhe cause algum problema. Deverá ter o tamanho do seu aneurisma monitorizado regularmente com ecografia (vigilância). Para os aneurismas mais pequenos, a vigilância pode ser necessária apenas a cada três anos.


Se o seu aneurisma da aorta abdominal for pequeno, o risco de rebentamento é extremamente reduzido.

O risco de disseção ou rotura aumenta à medida que o aneurisma aumenta de tamanho.

Para um aneurisma de 30 mm, o risco anual de rotura é de:

  1. 1 em 2 000 (0,005%) para homens
  2. 1 em 500 (0,02%) para mulheres

Para um aneurisma de 50 mm, o risco anual é de:

  1. 1 em 150 (0,66%) para homens
  2. 1 em 30 (3,3%) para mulheres

Sabe-se que o risco de rotura aumenta significativamente para aneurismas maiores que 55 mm.

Para aneurismas grandes, os riscos da cirurgia de reparação são considerados inferiores aos riscos de rotura. Por isso, a maioria dos doentes com um aneurisma da aorta abdominal grande é proposta para reparação.

Ainda existe alguma incerteza quanto ao risco de rotura para aneurismas entre 55 e 70 mm, mas este pode ser de até 1 em 10 (10%) por ano, aumentando para cerca de 30% para aneurismas ainda maiores.


Neste momento, não existem tratamentos (medicamentos, dieta ou exercício) que impeçam o seu aneurisma da aorta abdominal de aumentar de tamanho. No entanto, sabe-se que em fumadores o aneurisma tende a crescer mais rapidamente. Parar de fumar reduz a probabilidade de crescimento rápido do aneurisma.


Ter um aneurisma da aorta abdominal é muitas vezes um sinal de alerta de doença noutras artérias, incluindo as que irrigam o coração. Isto não é um efeito direto do aneurisma, mas sim porque as causas de aneurismas — como o tabagismo — também causam doença aterosclerótica noutras artérias.

Assim, o seu médico pode recomendar:

  1. Melhorar a sua condição física geral
  2. Tomar um ou mais medicamentos para reduzir o risco de doença cardíaca ou AVC

Atualmente, recomenda-se que todas as pessoas diagnosticadas com um aneurisma da aorta abdominal tomem um medicamento para baixar o colesterol (estatinas), para reduzir o risco de outras doenças cardiovasculares.

O exercício físico não é contraindicado e é encorajado.

Se o seu aneurisma crescer e ultrapassar uma dimensão considerada grande, o seu médico provavelmente recomendará uma cirurgia para reparação. Para muitos doentes, a reparação do aneurisma da aorta abdominal pode nunca ser necessária durante a vida.


Os homens com aneurisma da aorta abdominal que medem 55 mm ou mais devem ser referenciados a um cirurgião para considerar a reparação cirúrgica.

Sabe-se que os aneurismas nas mulheres têm mais probabilidade de rebentar a tamanhos menores do que nos homens.

No entanto, a cirurgia para reparar um aneurisma é mais arriscada para mulheres do que para homens. Por isso, em mulheres, a reparação é frequentemente considerada em aneurismas ligeiramente mais pequenos.


Quando for avaliado por um especialista em cirurgia vascular para discutir o seu aneurisma da aorta abdominal, a principal questão será determinar se beneficia ou não de uma operação.

Nem todas as pessoas com um aneurisma beneficiam de reparação.

Isto deve-se ao facto de os riscos associados à cirurgia variarem com a idade e com estado geral do doente. Se os riscos da cirurgia forem superiores aos riscos de rotura, a cirurgia não é recomendada, embora esta decisão possa ser revista se a situação se alterar.

Se a reparação for considerada, é provável que o doente seja enviado para uma TAC (tomografia axial computadorizada), que fornece informação mais detalhada. Isto implica a injeção de um contraste numa veia, permitindo visualizar claramente as artérias e o aneurisma. A TAC envolve uma pequena dose de radiação, mas é um método excelente para ver partes da aorta que não são acessíveis pela ecografia (por exemplo, a aorta torácica).


Existem dois tipos principais de cirurgia, a ciurgia aberta e a cirurgia endovascular.


A cirurgia aberta:

  1. é feita através de um corte grande no abdómen
  2. a aorta é exposta
  3. o fluxo de sangue é temporariamente interrompido
  4. o aneurisma é substituído por um enxerto protésico suturado no local
  5. o fluxo sanguíneo é depois restabelecido


Adaptado de Wanhainen A et al. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2024


A cirurgia endovascular (EVAR)

  1. é feita através de pequenos cortes/punções na virilha
  2. uma endoprótese (enxerto montado numa estrutura metálica) é introduzida pela artéria femoral
  3. é posicionada dentro da aorta utilizando raio-X
  4. a endoprótese reforça o interior da aorta e reduz o risco de rotura

Adaptado de Wanhainen A et al. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2024


Nem todos os doentes são adequados para EVAR.

Cerca de 70% a 80% das pessoas com aneurisma da aorta abdominal são elegíveis.


Em pessoas aptas para cirurgia aberta e endovascular, a decisão deve ser baseada na preferência pessoal do doente, em consulta com um cirurgião vascular.

Os fatores a considerar incluem:

  1. Forma da aorta
  2. Estado geral do doente
  3. Riscos específicos

Para doentes com risco cirúrgico ligeiramente mais elevado, recomenda-se a reparação endovascular.


Nos homens, o risco de mortalidade devido a uma complicação durante ou imediatamente após uma cirurgia eletiva é de aproximadamente 1 em 29 (3,4%) na reparação aberta e de 1 em 140 (0,7%) na reparação endovascular. Nas mulheres, o risco cirúrgico é mais elevado, sendo de cerca de 1 em 18 (5,6%) na reparação aberta e de 1 em 45 (2,2%) na reparação endovascular.



Um ano após a operação não há diferença na qualidade de vida dos doentes entre os dois tipos de reparação do AAA.

Três anos após a operação não há diferença na sobrevivência de acordo com o tipo de reparação do AAA.


Se um aneurisma rebentar (rupturar), trata-se de uma emergência médica.

Se tiver um aneurisma e desenvolver subitamente dor lombar ou abdominal intensa, ou se desmaiar, é muito importante procurar ajuda médica imediata e informar os profissionais de saúde de que tem um aneurisma da aorta abdominal.

Infelizmente, muitas pessoas não sobrevivem à rotura de um aneurisma.

Para aqueles que chegam ao hospital, pode ser realizada uma operação de emergência. No entanto, esta cirurgia tem um risco muito mais elevado do que a cirurgia programada. Cerca de 1 em cada 3 pessoas submetidas a cirurgia por rotura de aneurisma da aorta abdominal não sobrevive. Muitas das que sobrevivem terão uma recuperação prolongada de vários meses, ou podem sofrer incapacidade física de longo prazo.

A reparação de aneurismas rotos pode ser realizada utilizando os mesmos tipos de cirurgia que para a cirurgia planeada.

Com base em evidência recente, recomenda-se que os doentes com um aneurisma roto que sejam adequados para reparação endovascular tenham esta abordagem como primeira opção sempre que possível.


A maioria dos aneurismas é causada por uma combinação de fatores tais como predisposição genética do indivíduo e fatores ambientais (por exemplo, tabagismo) que, em conjunto, levam a danos na estrutura da parede da aorta e à formação do aneurisma.

Em alguns casos raros um aneurisma da aorta abdominal pode ser causado por outros fatores, incluindo infeções ou causas genéticas. É mais difícil recomendar tratamentos para estes aneurismas raros, porque existe menos conhecimento sobre doenças pouco frequentes.

A maioria dos aneurismas raros que ocorrem em idade mais avançada deve-se a:

  1. infeção
  2. inflamação
  3. ou outras doenças da aorta

O tratamento destes aneurismas pode ser diferente do habitual e as recomendações acima podem não se aplicar.

Se o seu médico suspeitar que o seu aneurisma da aorta abdominal se deve a uma destas causas, irá informá-lo e explicar qual o tratamento mais adequado para si.

Se existirem causas genéticas fortes, os doentes serão acompanhados por uma equipa conjunta de geneticistas clínicos e cirurgiões vasculares.


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