Profª Doutora Marina Dias Neto
Trombose venosa superficial ou profunda

Trombose venosa superficial ou profunda

A informação apresentada nesta secção corresponde a um resumo das recomendações da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular a propósito da Trombose Venosa. O texto resulta de uma tradução para português realizada pelos autores deste website, com o objetivo de facilitar o acesso à informação por parte dos doentes e do público em geral. Estas recomendações baseiam-se na melhor evidência científica disponível e foram elaboradas e revistas por especialistas internacionais. Como em todas as orientações clínicas, estas recomendações poderão ser revistas e atualizadas à medida que surja nova evidência científica.

Referência: Kakkos SK et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2021 Clinical Practice Guidelines on the Management of Venous Thrombosis. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2021 Jan;61(1):9-82. doi: 10.1016/j.ejvs.2020.09.023. Epub 2020 Dec 15. PMID: 33334670.

A trombose venosa é a expressão médica usada para designar a formação de um coágulo de sangue numa veia.

Aproximadamente 1 em cada 1 000 adultos desenvolve trombose venosa todos os anos. A maioria dos doentes com trombose venosa profunda esteve recentemente internada (trombose associada ao internamento) ou apresenta fatores de risco conhecidos. Contudo, em algumas pessoas não existe uma causa evidente — nestes casos, a trombose é considerada “não provocada”. Quando existe uma causa clara, a trombose é considerada “provocada”.

Quando se forma um coágulo dentro de uma veia, o sangue deixa de circular normalmente. Isso faz com que os tecidos drenados pela veia fiquem inchados e dolorosos. Os sintomas dependem das veias afetadas.

Após o início da trombose, as principais preocupações são:

  1. a possibilidade do coágulo aumentar, ou
  2. uma parte soltar-se e deslocar-se para os pulmões, causando uma embolia pulmonar — uma situação grave, uma vez que até 10% das pessoas com embolia pulmonar não tratada podem morrer.

O tratamento da trombose venosa profunda visa sobretudo reduzir o risco de embolia pulmonar.


Os motivos variam entre indivíduos, mas geralmente os coágulos formam-se devido a:

  1. redução do fluxo sanguíneo na veia
  2. danos na parede da veia
  3. aumento da “aderência” do sangue, tornando a coagulação mais provável

Certas situações aumentam o risco, como:

  1. idade avançada
  2. imobilidade
  3. cirurgia recente ou internamento
  4. cancro
  5. gravidez
  6. pílula contracetiva ou terapêutica hormonal
  7. obesidade
  8. viagens prolongadas


A trombose venosa pode afetar qualquer veia, mas algumas são mais comuns.

A forma mais frequente de trombose venosa afecta as veias profundas das pernas. Apenas cerca de 10% das tromboses venosas profundas afetam as veias dos braços.

Também pode ocorrer trombose nas veias superficiais da perna (e menos frequentemente, do braço) - trombose venosa superficial, também conhecida como “flebite”, “tromboflebite” ou “tromboflebite superficial”. Apesar de diferente da trombose venosa profunda, a trombose venosa superficial pode progredir para as veias profundas e causar trombose venosa profunda e embolia pulmonar.

A trombose também pode ocorrer em veias onde exista um cateter/cânula.

Casos mais raros incluem trombose nas veias do abdómen, cabeça e pescoço. Estes casos são mais raros e habitualmente associados a outros problemas médicos.


Os sintomas típicos incluem:

  1. dor na perna
  2. vermelhidão
  3. inchaço da barriga da perna
  4. sensibilidade à palpação

Nos casos mais extensos, toda a perna pode ficar afetada. Contudo, cada pessoa é diferente e, em algumas situações, pode haver poucos sinais exteriores de trombose, sobretudo quando o coágulo se aloja apenas nas veias da barriga da perna.

A trombose venosa profunda do braço pode causar:

  1. braço inchado, doloroso e quente
  2. com coloração azulada

A trombose venosa superficial provoca:

  1. veia endurecida, espessada, vermelha e dolorosa
  2. pele escurecida
  3. frequentemente ocorre em pessoas com varizes


O diagnóstico pode ser difícil. Algumas características tornam a trombose venosa profunda mais provável, e recomenda-se o uso de um sistema de pontuação clínico (score de Wells).

Os exames incluem:

  1. D-dímeros (análise de sangue) podem ser úteis para decidir se a trombose é ou não provável
  2. Ecodoppler das veias — recomendado como primeiro exame se a trombose venosa for considerada provável

Em alguns casos, podem ser necessários estudos adicionais:

  1. repetir ecodoppler
  2. tomografia computorizada 
  3. ressonância magnética

Os exames de rotina para despiste de embolia pulmonar, cancro ou alterações da coagulação não são recomendados para todos os pacientes.


O tratamento principal é medicação anticoagulante (“afinar o sangue”), que:

  1. reduz o risco de embolia pulmonar
  2. evita que o coágulo cresça

Vários tipos de medicamentos anticoagulantes estão disponíveis, cada um com diferentes vantagens e potenciais riscos. Para doentes com trombose venosa profunda provocada (causa clara), o tratamento mais comum consiste em:

→ 3 meses de anticoagulação

→ com novos anticoagulantes orais (também conhecidos como anticoagulantes orais directos ou DOAC)

Para doentes com trombose venosa profunda não provocada (sem causa evidente):

→ o risco de recorrência é elevado

→ prolongar o tratamento além de 3 meses, se o risco de hemorragia não for demasiado elevado

Para doentes com baixo risco, pode usar-se uma dose reduzida de DOAC.

Recomenda-se também na trombose venosa profunda:

  1. aplicação de meias ou ligaduras de compressão logo nas primeiras 24 horas
  2. continuar a usar 6–12 meses para reduzir dor e inchaço


Muitas pessoas com trombose venosa profunda tratadas apenas com medicação anticoagulante desenvolvem síndrome pós-trombótica. Nesta condição, a perna mantém sinais e sintomas durante meses, ou mesmo anos, após o episódio de trombose, tais como:

  1. dor persistente
  2. inchaço
  3. escurecimento da pele
  4. úlceras venosas

Algumas técnicas estão disponíveis para remover ou fragmentar o coágulo após o diagnóstico de trombose venosa profunda, de forma a prevenir a síndrome pós-trombótica. Estas técnicas só são recomendadas para alguns doentes com trombose venosa profunda que se estende às veias do abdómen (veias ilíacas). Não são recomendadas para trombose venosa profunda limitada à perna.


O risco de ter uma nova trombose venosa profunda depende da causa.

Na trombose venosa profunda provocada, o risco é baixo se o fator desapareceu.

Na trombose venosa profunda não provocada, o risco é mais elevado. Entre 25% e 50% dos doentes terão uma nova trombose venosa profunda se suspenderem o tratamento anticoagulante. Por esse motivo, pode ser necessário tratamento prolongado.


A trombose venosa superficial ocorre frequentemente em pessoas com varizes. Como as veias superficiais drenam nas veias profundas, há o risco da trombose evoluir para uma trombose venosa profunda.

Para todos os casos suspeitos, recomenda-se ecodoppler venoso do sistema superficial e profundo. Se o coágulo tiver mais de 5 cm, recomenda-se de 30 dias a 3 meses de anticoagulação consoante a proximidade às veias profundas.

Pessoas com varizes podem, posteriormente, precisar de tratamento das varizes.


As tromboses venosas do braço representam apenas cerca de 10% das tromboses venosas profundas.

As causas mais comuns são:

  1. cateteres utilizados para administração de medicação endovenosa
  2. “trombose de esforço”, situação em que exista compressão das veias profundas à medida que estas passam do membro superior para o tórax, reduzindo o fluxo venoso e favorecendo a formação do trombo

Os princípios do tratamento são semelhantes aos da trombose venosa profunda da perna. Recomenda-se:

  1. 3 meses de anticoagulação
  2. não se recomendam tratamentos invasivos tendo em vista a remoção do coágulo na maioria dos casos 


As trombofilias aumentam a probabilidade de coágulos. Algumas são hereditárias, outras adquiridas.

Para certas trombofilias de alto risco, recomenda-se medicação anticoagulante vitalícia para reduzir o risco de trombose venosa.


Algumas questões ainda não têm resposta clara:

  1. Qual o melhor percurso diagnóstico e terapêutico?
  2. Quem deve ser examinado para cancro ou embolia pulmonar?
  3. Como avaliar o risco de hemorragia ao iniciar anticoagulação?
  4. Quem deve receber terapias invasivas para remoção do coágulo?
  5. Qual o custo-benefício dos diferentes tratamentos?


A escala de Villalta é utilizada para o diagnóstico e classificação da gravidade da síndrome pós-trombótica (SPT), tendo sido adaptada de Villalta et al. (1994).

Cada variável recebe uma pontuação entre 0 e 3, que indica gravidade ausente, ligeira, moderada ou grave, respetivamente, sendo a pontuação máxima possível 33.




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