Lipedema
Apesar dos recentes avanços, persiste variabilidade nos critérios de diagnóstico e nas abordagens terapêuticas do lipedema.
Enquanto não dispomos de evidência robusta, partilho abaixo os resultados do estudo de consenso Delphi publicado em Janeiro de 2026, que foi conduzido com o objetivo de responder à necessidade de uma definição padronizada e de abordagens estruturadas para o tratamento do lipedema.
Um estudo Delphi é um processo em que vários especialistas respondem a perguntas (normalmente questionários), de forma anónima, em várias rondas sucessivas, até se atingir um nível de concordância (consenso). Assim a informação que se segue baseia-se em opinião de especialistas, não apenas em evidência.
Referência: Kruppa P, Crescenzi R, Faerber G, Forner-Cordero I, Cornely M, Shayan R, Karnezis T, Simarro JL, de Souza PF, Herbst KL, Ghods M, Michelini S. Lipedema World Alliance Delphi Consensus-Based Position Paper on the Definition and Management of Lipedema: Results from the 2023 Lipedema World Congress in Potsdam. Nat Commun. 2026 Jan 10;17(1):427. doi: 10.1038/s41467-025-68232-z. PMID: 41519859; PMCID: PMC12796449.
- O lipedema é uma doença crónica.
- O lipedema não tratado apresenta-se tipicamente como um aumento simétrico e bilateral do tecido adiposo subcutâneo nas extremidades, acompanhado de dor e/ou desconforto.
- O lipedema caracteriza-se por uma expansão desproporcional do tecido adiposo subcutâneo das extremidades em comparação com o tronco.
- O lipedema pode envolver deposição excessiva de tecido adiposo nas extremidades superiores de forma simétrica e bilateral.
- O lipedema geralmente poupa as mãos e os pés de deposição excessiva de gordura.
- A sensibilidade física à pressão e/ou ao estiramento é observada através de métodos como a palpação, sendo principalmente referida pelos doentes como dor.
- O aumento da sensibilidade e da dor causado pelo lipedema parece estar restrito às áreas do corpo com aumento de volume relacionado com lipedema.
- Os doentes referem frequentemente sensação de inchaço ou peso nas áreas afetadas.
- O edema com godet (depressão na pele que persiste) geralmente não está presente no tecido afetado por lipedema.
- Os doentes com lipedema apresentam frequentemente facilidade em fazer pisaduras nas áreas afetadas.
- O sinal de Kaposi-Stemmer é geralmente negativo no lipedema.
- O lipedema é uma doença que envolve o tecido adiposo subcutâneo.
- Diversos achados sugerem que a inflamação pode contribuir para a patogénese do lipedema.
- Diversos achados sugerem que fatores hormonais podem contribuir para a patogénese do lipedema.
- Vários achados sugerem que o volume de fluido extracelular pode estar aumentado no tecido afetado por lipedema em comparação com controlos sem lipedema com Índices de Massa Corporal (IMC) semelhantes.
- O lipedema afeta predominantemente mulheres biológicas. A sua ocorrência em homens biológicos parece ser possível, mas rara.
- Alterações hormonais podem desencadear ou agravar os sintomas do lipedema.
- O lipedema é hereditário em alguns casos.
- A prevalência do lipedema na população feminina adulta permanece desconhecida. As estimativas variam entre menos de 1% e até 12%.
- A obesidade é uma doença concomitante frequentemente observada em doentes com lipedema.
- O lipedema não é uma comorbilidade relacionada com a obesidade.
- O IMC tem valor limitado na distinção entre lipedema e obesidade. Assim, é aconselhável utilizar o rácio cintura/altura para excluir ou avaliar a obesidade.
- Nos casos em que o lipedema coexiste com obesidade, é expectável que os sintomas de lipedema persistam após cirurgia bariátrica.
- Pode desenvolver-se linfostase concomitante no lipedema.
- Vários achados sugerem que a prevalência de hipotiroidismo pode ser superior em doentes com lipedema comparativamente a populações sem lipedema com IMC e idade semelhantes.
- O lipedema pode estar associado a doenças do tecido conjuntivo, como os distúrbios do espectro de hipermobilidade.
- O lipedema pode afetar negativamente a saúde mental e a qualidade de vida global.
- Quando presente, o envolvimento psicológico pode ser causado pelos sintomas relacionados com o lipedema, em vez de ser a causa desses sintomas.
- O diagnóstico ou tratamento tardio ou ausente do lipedema afeta negativamente a carga sintomática, o bem-estar mental e a qualidade de vida global do doente.
- O diagnóstico ou tratamento tardio ou ausente do lipedema aumenta os custos para o doente e para o sistema de saúde
- O diagnóstico clínico do lipedema baseia-se na história clínica, exame físico e exclusão de diagnósticos diferenciais.
- Atualmente, não existem exames imagiológicos, serológicos ou genéticos, nem instrumentos de medição clínica oficialmente aprovados para confirmar o diagnóstico clínico.
- Os exames clínicos de rotina devem incluir medições antropométricas padronizadas, como rácio cintura/altura, rácio cintura/anca e IMC.
- A classificação clínica do lipedema por estadios não reflete a totalidade da gravidade dos sintomas.
- A classificação clínica atual do lipedema por estádios tem relevância limitada na gestão da doença.
- A progressão da gravidade dos sintomas associados ao lipedema depende de vários fatores e não é universal.
- O aumento do volume dos membros no lipedema não está, de forma geral, associado à obesidade.
- As classificações clínicas baseadas na localização têm apenas significado descritivo.
- Todas as intervenções terapêuticas no lipedema têm como objetivo aliviar os sintomas e prevenir ou retardar a progressão.
- A gestão abrangente da doença requer uma abordagem multidisciplinar adaptada às necessidades individuais, podendo envolver médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e profissionais de saúde mental.
- A dor e a sensibilidade física no lipedema têm sido relatadas como reduzidas com ligaduras, compressão, terapia descongestiva completa ou outras terapias físicas, alterações dietéticas, exercício adaptado e cirurgia de redução do lipedema, com efeitos e durações variáveis.
- O tratamento conservador deve incluir otimização do estilo de vida e da alimentação, terapia compressiva e exercício físico para aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
- A autogestão ativa pode ajudar a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
- A terapia descongestiva complexa(a) pode ser eficaz, mas nem todos os seus componentes são necessários para todos os doentes.
- A orientação nutricional pode ajudar a controlar o peso, melhorar a saúde global, reduzir os sintomas associados ao lidepema e melhorar a resposta às intervenções terapêuticas.
- Embora o tecido adiposo subcutâneo patológico do lipedema seja resistente à dieta, a perda de peso nos pacientes com obesidade concomitente pode melhorar os sintomas.
- Dado que a obesidade agrava as manifestações do lipedema, a gestão deve incluir otimização do peso, com foco no rácio cintura/altura e cintura/anca.
- O apoio psicológico e social, endereçando a imagem corporal, o bem estar mental e estratégias de adaptação podem ser importantes para reduzir a carga sintomática.
- Exercícios adaptados, como atividade física em meio aquático, caminhada e yoga, podem ajudar a manter a mobilidade, a atenuar os sintomas relacionados com o lipedema e a ajudar na gestão do peso em indivíduos com lipedema.
- Atualmente, não existe evidência da eficácia de nenhum tratamento farmacológico para o lipedema.
- Quando coexistem obesidade e doença metabólica, deve priorizar-se o tratamento da obesidade antes de se considerar a cirurgia de redução do lipedema.
- A cirurgia de redução do lipedema com preservação dos vasos linfáticos deve ser considerada quando existe potencial para um impacto positivo nos sintomas associados ao lipedema.
- A cirurgia deve ser realizada por profissionais experientes em lipedema, incluindo tratamento conservador como parte de uma abordagem integral.
- Aumentar a sensibilização para o lipedema é essencial para reduzir o subdiagnóstico e o estigma.
- Deve ser desenvolvido um formulário clínico padronizado para melhorar diagnóstico e investigação.
- É necessária mais investigação para elucidar os mecanismos biológicos subjacentes ao lipedema, conduzindo ao desenvolvimento de critérios diagnósticos objetivos e terapêuticas dirigidas.”
- São necessários estudos para validar métodos diagnósticos (sensibilidade, especificidade, reprodutibilidade).
- São necessários estudos a longo prazo para avaliar a eficácia e segurança dos tratamentos.
- A colaboração entre doentes, investigadores e clínicos é essencial para melhorar os cuidados.
(a) A Terapia Descongestiva Complexa ou Completa é uma abordagem terapêutica não cirúrgica utilizada no tratamento do linfedema e frequentemente aplicada no controlo dos sintomas do lipedema. Trata-se de uma intervenção multimodal que combina drenagem linfática manual, terapia compressiva, exercício terapêutico e cuidados com a pele, com o objetivo de reduzir o edema, melhorar a circulação linfática, aliviar a dor e prevenir a progressão da doença. Habitualmente, é realizada em duas fases: uma fase intensiva, orientada por profissionais de saúde, focada na redução do volume, seguida de uma fase de manutenção baseada no autocuidado do doente. Embora não constitua uma cura para o lipedema, pode contribuir significativamente para a melhoria dos sintomas e da qualidade de vida.