Profª Doutora Marina Dias Neto
Lipedema

Lipedema

Apesar dos recentes avanços, persiste variabilidade nos critérios de diagnóstico e nas abordagens terapêuticas do lipedema.

Enquanto não dispomos de evidência robusta, partilho abaixo os resultados do estudo de consenso Delphi publicado em Janeiro de 2026, que foi conduzido com o objetivo de responder à necessidade de uma definição padronizada e de abordagens estruturadas para o tratamento do lipedema.

Um estudo Delphi é um processo em que vários especialistas respondem a perguntas (normalmente questionários), de forma anónima, em várias rondas sucessivas, até se atingir um nível de concordância (consenso). Assim a informação que se segue baseia-se em opinião de especialistas, não apenas em evidência.


Referência: Kruppa P, Crescenzi R, Faerber G, Forner-Cordero I, Cornely M, Shayan R, Karnezis T, Simarro JL, de Souza PF, Herbst KL, Ghods M, Michelini S. Lipedema World Alliance Delphi Consensus-Based Position Paper on the Definition and Management of Lipedema: Results from the 2023 Lipedema World Congress in Potsdam. Nat Commun. 2026 Jan 10;17(1):427. doi: 10.1038/s41467-025-68232-z. PMID: 41519859; PMCID: PMC12796449.

  1. O lipedema é uma doença crónica.
  2. O lipedema não tratado apresenta-se tipicamente como um aumento simétrico e bilateral do tecido adiposo subcutâneo nas extremidades, acompanhado de dor e/ou desconforto.
  3. O lipedema caracteriza-se por uma expansão desproporcional do tecido adiposo subcutâneo das extremidades em comparação com o tronco.
  4. O lipedema pode envolver deposição excessiva de tecido adiposo nas extremidades superiores de forma simétrica e bilateral.
  5. O lipedema geralmente poupa as mãos e os pés de deposição excessiva de gordura.
  6. A sensibilidade física à pressão e/ou ao estiramento é observada através de métodos como a palpação, sendo principalmente referida pelos doentes como dor.
  7. O aumento da sensibilidade e da dor causado pelo lipedema parece estar restrito às áreas do corpo com aumento de volume relacionado com lipedema.
  8. Os doentes referem frequentemente sensação de inchaço ou peso nas áreas afetadas.
  9. O edema com godet (depressão na pele que persiste) geralmente não está presente no tecido afetado por lipedema.
  10. Os doentes com lipedema apresentam frequentemente facilidade em fazer pisaduras nas áreas afetadas.
  11. O sinal de Kaposi-Stemmer é geralmente negativo no lipedema.


  1. O lipedema é uma doença que envolve o tecido adiposo subcutâneo.
  2. Diversos achados sugerem que a inflamação pode contribuir para a patogénese do lipedema.
  3. Diversos achados sugerem que fatores hormonais podem contribuir para a patogénese do lipedema.
  4. Vários achados sugerem que o volume de fluido extracelular pode estar aumentado no tecido afetado por lipedema em comparação com controlos sem lipedema com Índices de Massa Corporal (IMC) semelhantes.


  1. O lipedema afeta predominantemente mulheres biológicas. A sua ocorrência em homens biológicos parece ser possível, mas rara.
  2. Alterações hormonais podem desencadear ou agravar os sintomas do lipedema.
  3. O lipedema é hereditário em alguns casos.
  4. A prevalência do lipedema na população feminina adulta permanece desconhecida. As estimativas variam entre menos de 1% e até 12%.


  1. A obesidade é uma doença concomitante frequentemente observada em doentes com lipedema.
  2. O lipedema não é uma comorbilidade relacionada com a obesidade.
  3. O IMC tem valor limitado na distinção entre lipedema e obesidade. Assim, é aconselhável utilizar o rácio cintura/altura para excluir ou avaliar a obesidade.
  4. Nos casos em que o lipedema coexiste com obesidade, é expectável que os sintomas de lipedema persistam após cirurgia bariátrica.
  5. Pode desenvolver-se linfostase concomitante no lipedema.
  6. Vários achados sugerem que a prevalência de hipotiroidismo pode ser superior em doentes com lipedema comparativamente a populações sem lipedema com IMC e idade semelhantes.
  7. O lipedema pode estar associado a doenças do tecido conjuntivo, como os distúrbios do espectro de hipermobilidade.


  1. O lipedema pode afetar negativamente a saúde mental e a qualidade de vida global.
  2. Quando presente, o envolvimento psicológico pode ser causado pelos sintomas relacionados com o lipedema, em vez de ser a causa desses sintomas.
  3. O diagnóstico ou tratamento tardio ou ausente do lipedema afeta negativamente a carga sintomática, o bem-estar mental e a qualidade de vida global do doente.
  4. O diagnóstico ou tratamento tardio ou ausente do lipedema aumenta os custos para o doente e para o sistema de saúde


  1. O diagnóstico clínico do lipedema baseia-se na história clínica, exame físico e exclusão de diagnósticos diferenciais.
  2. Atualmente, não existem exames imagiológicos, serológicos ou genéticos, nem instrumentos de medição clínica oficialmente aprovados para confirmar o diagnóstico clínico.
  3. Os exames clínicos de rotina devem incluir medições antropométricas padronizadas, como rácio cintura/altura, rácio cintura/anca e IMC.
  4. A classificação clínica do lipedema por estadios não reflete a totalidade da gravidade dos sintomas.
  5. A classificação clínica atual do lipedema por estádios tem relevância limitada na gestão da doença.
  6. A progressão da gravidade dos sintomas associados ao lipedema depende de vários fatores e não é universal.
  7. O aumento do volume dos membros no lipedema não está, de forma geral, associado à obesidade.
  8. As classificações clínicas baseadas na localização têm apenas significado descritivo.


  1. Todas as intervenções terapêuticas no lipedema têm como objetivo aliviar os sintomas e prevenir ou retardar a progressão.
  2. A gestão abrangente da doença requer uma abordagem multidisciplinar adaptada às necessidades individuais, podendo envolver médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e profissionais de saúde mental.
  3. A dor e a sensibilidade física no lipedema têm sido relatadas como reduzidas com ligaduras, compressão, terapia descongestiva completa ou outras terapias físicas, alterações dietéticas, exercício adaptado e cirurgia de redução do lipedema, com efeitos e durações variáveis.
  4. O tratamento conservador deve incluir otimização do estilo de vida e da alimentação, terapia compressiva e exercício físico para aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
  5. A autogestão ativa pode ajudar a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
  6. A terapia descongestiva complexa(a) pode ser eficaz, mas nem todos os seus componentes são necessários para todos os doentes.
  7. A orientação nutricional pode ajudar a controlar o peso, melhorar a saúde global, reduzir os sintomas associados ao lidepema e melhorar a resposta às intervenções terapêuticas.
  8. Embora o tecido adiposo subcutâneo patológico do lipedema seja resistente à dieta, a perda de peso nos pacientes com obesidade concomitente pode melhorar os sintomas.
  9. Dado que a obesidade agrava as manifestações do lipedema, a gestão deve incluir otimização do peso, com foco no rácio cintura/altura e cintura/anca. 
  10. O apoio psicológico e social, endereçando a imagem corporal, o bem estar mental e estratégias de adaptação podem ser importantes para reduzir a carga sintomática.
  11. Exercícios adaptados, como atividade física em meio aquático, caminhada e yoga, podem ajudar a manter a mobilidade, a atenuar os sintomas relacionados com o lipedema e a ajudar na gestão do peso em indivíduos com lipedema.
  12. Atualmente, não existe evidência da eficácia de nenhum tratamento farmacológico para o lipedema.
  13. Quando coexistem obesidade e doença metabólica, deve priorizar-se o tratamento da obesidade antes de se considerar a cirurgia de redução do lipedema.
  14. A cirurgia de redução do lipedema com preservação dos vasos linfáticos deve ser considerada quando existe potencial para um impacto positivo nos sintomas associados ao lipedema.
  15. A cirurgia deve ser realizada por profissionais experientes em lipedema, incluindo tratamento conservador como parte de uma abordagem integral.


  1. Aumentar a sensibilização para o lipedema é essencial para reduzir o subdiagnóstico e o estigma.
  2. Deve ser desenvolvido um formulário clínico padronizado para melhorar diagnóstico e investigação.
  3. É necessária mais investigação para elucidar os mecanismos biológicos subjacentes ao lipedema, conduzindo ao desenvolvimento de critérios diagnósticos objetivos e terapêuticas dirigidas.”
  4. São necessários estudos para validar métodos diagnósticos (sensibilidade, especificidade, reprodutibilidade).
  5. São necessários estudos a longo prazo para avaliar a eficácia e segurança dos tratamentos.
  6. A colaboração entre doentes, investigadores e clínicos é essencial para melhorar os cuidados.

(a) A Terapia Descongestiva Complexa ou Completa é uma abordagem terapêutica não cirúrgica utilizada no tratamento do linfedema e frequentemente aplicada no controlo dos sintomas do lipedema. Trata-se de uma intervenção multimodal que combina drenagem linfática manual, terapia compressiva, exercício terapêutico e cuidados com a pele, com o objetivo de reduzir o edema, melhorar a circulação linfática, aliviar a dor e prevenir a progressão da doença. Habitualmente, é realizada em duas fases: uma fase intensiva, orientada por profissionais de saúde, focada na redução do volume, seguida de uma fase de manutenção baseada no autocuidado do doente. Embora não constitua uma cura para o lipedema, pode contribuir significativamente para a melhoria dos sintomas e da qualidade de vida.


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